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Rascunho de carta de Allan Kardec para Amélie Gabrielle Boudet - 20/11/AAAA

Domingo, 20 de novembro.

Minha boa Amélie, recebi tua carta ontem, sábado; mas como passei parte da manhã no tribunal para resolver o negócio do teatro, ela só me foi entregue tarde, e, consequentemente, não a tempo para conseguir te responder durante o dia. Quanto à minha última carta, comecei a escrevê-la no sábado, mas a terminei e coloquei no correio no domingo. Ora, seja em Paris, seja em <Aix>, as cartas partem à noite, chegam na noite seguinte e só são distribuídas dois dias depois pela manhã.

Vamos agora ao conteúdo da tua carta. Meu desapontamento, eu sabia, foi grande; de acordo com sua 1ª sessão, eu fiz alguns pequenos cálculos, e Deus sabe que decepção<!> Não dá para entender. Começo a acreditar que há um poder superior que frustra todas as combinações desse tipo de especulação.

Pedes a minha opinião. Refiro-me à tua prudência; deves saber melhor o que convém fazer; confesso, porém, que gostaria que experimentasses tu mesma, uma vez que estás bem familiarizada com o funcionamento da operação. Essa tão tenaz sorte contrária é deveras extraordinária e não pode durar. Acredito ainda que ela pode se reverter. Presumo que, desde que pararam de operar de fato, vocês continuaram <seguindo> <as> sessões, coletaram os números e operaram ficticiamente. Minha opinião, portanto, salvo a tua, seria tentar de novo. Se a sorte se mantiver rebelde, será preciso retomá-la à força. Entendo todas as desilusões do meu tio; para nós é <doloroso> ficarmos desapontados, e para ele é ainda mais, depois de tantas probabilidades de sucesso.

Caso partam após o recebimento da minha carta, não vejo a possibilidade de me avisarem; mas se souberes o dia, ficarei bem satisfeito, pois então vou esperá-los na ferrovia.

Sem aguardar a tua recomendação, eu <teria> ido ver a senhora Musset no último domingo. A senhora Henry veio me ver ontem e recomendou que eu lhe escrevesse se estivesse doente, porque ela viria me tratar. Na última segunda-feira, jantei na <Félicité>, que foi muito graciosa, e me comprometi a ir lá quando eu desejasse; pretendo ir novamente amanhã. Na quinta-feira, jantei na casa da senhora Pierret, que há alguns dias está muito doente; fui esta manhã para ter notícias dela; ela está melhor; e na terça-feira vou jantar lá.

Como eu te disse, o caso do teatro foi ao tribunal ontem; isto é, da senhora <Belgis> contra [ileg.] para a questão dos aluguéis. Houve apenas alegações, que duraram toda a sessão; o pronunciamento do juiz foi adiado para sábado. O laudo do perito será <entregue> esta semana, então iremos ao ataque pelo pagamento do material.

Nada de novo com relação ao assunto “Défaux”.

Joseph Pierret está fundindo os <modelos> dos seus aparelhos; os tubos de vidro serão bem mais baratos do que ele esperava. Os primeiros adiantamentos para estas despesas foram-lhe feitos pelo senhor [ileg.], engenheiro ou arquiteto do Palácio de Cristal.

Minha saúde continua muito boa; só meus olhos estão devagar; é verdade que eu não pude retomar o tratamento. Não preciso te dizer sobre todas as amizades que tenho para ti.

Sou obrigado a parar de escrever porque domingo os correios fecham mais cedo e porque só tenho o exato tempo de <postar> minha carta e de te dizer adeus, abraçando-te ternamente, assim como a meu tio, a quem peço que tenha coragem.

Louise é sempre muito justa, muito atenta e muito cuidadosa.

Tivemos todos esses dias um tempo muito frio e uma neblina muito densa. Hoje o tempo está soberbo.

Se tu permanecesses lá, eu gostaria que te comprometesses a me escrever em dias <fixos>, para que eu soubesse o que esperar nos dias em que deveria receber uma carta. Assim, ao escrever-me regularmente aos domingos e quartas-feiras, saberia que receberia uma carta todas as terças e sextas-feiras.

Adeus mais uma vez, minha boa Amélie; com todo meu afeto

H.L.D.R.

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Dimanche 20 9bre.

Ma bonne Amélie, j’ai reçu ta lettre hier samedi ; mais comme je suis resté une partie de la journée au tribunal pour l’affaire du théâtre, elle n’a pu m’être <remise> que tard, et par conséquent pas assez à temps pour pouvoir te répondre dans la journée. Quant à ma dernière, elle a en effet été commencée le samedi, mais elle a été finie et mise à la poste le dimanche. <Or, soit> de Paris, <soit d’Aix>, les lettres partent de soir, arrivent le lendemain soir, et ne sont distribuées que le surlendemain matin.

<Venons-en> maintenant au contenu de ta lettre ; mon désappointement, je l’avoue, a été grand ; d’après votre 1ère séance j’avais fait mes petits calculs, et Dieu sait quelle déception <!> <C’est> à n’y rien comprendre. Je commence à croire qu’il y a une puissance supérieure qui déjoue toutes les combinaisons de ces sortes de spéculations.

Tu me demandes mon avis. Je me rapporte à ta prudence ; tu dois mieux savoir ce qu’il convient de faire ; cependant j’avoue que j’aurais voulu que tu essayasses toi-même, puisque maintenant tu es bien familiarisée avec la marche de l’opération. Cette chance contraire si tenace est vraiment extraordinaire et ne peut durer. Je crois encore qu’elle peut tourner. Je présume que depuis que vous avez cessé d’opérer en réalité, vous avez toujours <suivi> <les> séances et relevé les n.os et opéré fictivement. Mon avis serait donc, sauf le tien, d’essayer encore ; si la chance continue à être rebelle, alors il faut revenir par force et en prendre son parti. Je <conçois> tous <les> désappointements de mon oncle ; il est <pénible> pour nous d’être déçus, il l’est encore plus pour lui de l’être après tant de probabilités de réussite.

Dans le cas où vous partiriez au reçu de ma lettre, je ne vois pas la possibilité que tu me préviennes ; mais si tu vois jour à le faire, j’en serais bien aise, parce que j’irai vous attendre au chemin de fer.

Sans attendre ta recommandation <j’aurais> été voir Mad. Musset dimanche dernier. Mad. Henry est venue me voir hier et m’a bien recommandé de lui écrire si j’étais malade, parce qu’elle viendrait me soigner. J’ai dîné lundi dernier chez <Félicité> qui a été très <gracieuse> et m’a <engagé> à y aller quand je voudrais ; je compte y retourner demain. Jeudi j’ai dîné chez Mad. Pierret qui est très mal portante depuis quelques jours ; je suis allé ce matin savoir de ses nouvelles ; elle va mieux ; et mardi j’y vais dîner.

Comme je te l’ai dit, c’était hier que venait au tribunal l’affaire du théâtre ; c’est-à-dire de Mad. <Belgis> contre [illis.] pour la question des loyers. Il n’y a eu que les plaidoiries qui ont duré toute la séance ; le prononcé du jugement est remis à samedi. Le rapport de l’expert va être <déposé> cette semaine, de sorte que nous allons à notre tour l’attaquer pour le paiement du matériel.

Rien de nouveau pour l’affaire <Défaux>.

Joseph Pierret fait fondre en ce moment les <modèles> de ses appareils ; les tuyaux en verre seront bien meilleur marché qu’il ne l’avait supposé. Les premières avancées pour ces dépenses lui sont faites par M.r [illis.], ingénieur ou architecte du Palais de Cristal.

Ma santé continue à être très bonne ; il n’y a que mes yeux qui ne vont pas vite ; il est vrai que je n’ai pas encore pu reprendre le traitement.

Je n’ai pas besoin de te dire toutes les amitiés dont je suis <chargé> pour toi.

Je suis obligé de m’arrêter parce que le dimanche la poste ferme plus tôt et que j’ai tout juste le temps d’aller <porter> poster ma lettre* {*de te dire adieu en t’embrassant bien tendrement, ainsi que mon oncle que j’engage à prendre courage}.

Louise est toujours très exacte, très attentive et très <soignante>.

Nous avons eu tous ces jours-ci un temps très froid et un brouillard très épais. Aujourd’hui il fait un temps superbe.

Si tu fusses restée là-bas, je voulais t’engager à m’écrire à jour <fixé> afin que je susse à quoi m’en tenir sur les jours où je devrais recevoir une lettre. Ainsi, en m’écrivant régulièrement le dimanche et le mercredi, j’aurais su que j’aurais une lettre tous les mardis et tous les vendredis.

Adieu encore une fois ma bonne Amélie ; ton bien affectionné

H.L.D.R.