Item

188K
Carta

Carta de Allan Kardec para Amélie Boudet - 20/08/AAAA

Lyon, sexta-feira, 20 de agosto.

Recebi tua carta nesta manhã, minha boa Amélie, e ela me deu um grande prazer por saber que a tua saúde está um pouco melhor; espero que tu não pares o andamento e que faças exatamente tudo o que será prescrito até o fim. Quanto a mim, tive uma nevralgia que me fez sofrer como um condenado durante alguns dias; agora está melhor, mas como a irradiação provém de uma inflamação nas gengivas, tenho dores terríveis quando canso a mandíbula [ao] comer, o que me obriga a ficar em abstinência; como isso não é perigoso, não me preocupo. Sinto, aliás, que isso está chegando ao fim.

Não tenho ainda nada de novo com relação aos meus negócios aqui, apenas que o senhor <Girardin> veio me ver na quarta-feira à noite, seja para me fazer uma visita, seja para me advertir de viva voz (independentemente do convite que recebi) que um serviço seria celebrado no dia seguinte, às 9 horas da manhã. Nós conversamos por muito tempo, mas sobre assuntos triviais; evitei intencionalmente dizer qualquer coisa que aludisse à minha falta.

Assim que vi o senhor <Gérison>, um dia após minha visita ao senhor <Girardin>, ele já sabia, pelo senhor <Laboris>, o efeito que ela havia produzido. O senhor <Girardin> estava muito satisfeito, mas o senhor <Laborie> não pode vê-lo sozinho e lhe falar sobre o negócio. Como não vi mais o senhor <Quison>, fui à casa dele, mas não o encontrei, de modo que não sei o que aconteceu. Acabei de escrever algumas palavras ao senhor <Girardin> para lhe perguntar sobre o dia de retirar os selos; isso será um outro meio de conseguir dele alguma coisa, que te enviarei para consultar.

Eu vejo com satisfação a persistência de Mariette em suas esperanças; isso me dá coragem, e admito que são essas garantias que me levaram a não deixá-la partir de início, quando vi como acabou. São essas as mesmas seguranças que me fizeram pensar muito, para ver se não haveria um meio qualquer de se aproveitar da situação. Ora, eis o que espero: ou o senhor Girardin, cedendo a um espírito de equidade e, talvez, de amor-próprio, me dá uma parte conveniente, ou ele recusará. Se ele se recusar a me abandonar, se não quiser privar seus filhos de uma parte dessa fortuna, então farei averiguar [a possibilidade] de me ceder o usufruto, o que não o privará do seu fundo: para mim seria sempre um bom negócio. Enfim, em última análise, eu exporei minha posição de maneira que ele não poderá, sem ser sem coração, se recusar a me dar apoio e segurança para os meus negócios, mesmo que apenas a título de empréstimo, se ele não quiser de outro modo. Espero, assim, que de uma maneira ou de outra, ter qualquer coisa de útil. Enfim, uma circunstância pode se apresentar, mas isso é mais um desejo do que outra coisa, que poderia talvez forçar um pouco a mão do senhor Giradin; é no inventário que será feito, quando os selos serão retirados. Não espero encontrar novos arranjos a meu favor, ao contrário: pode ser que, em alguns escritos, ela tenha justificado minha exclusão por qualquer razão que eu não suponha, o que me seria favorável, como, por exemplo, não ser filho do meu pai. Eu gostaria que houvesse algo semelhante para todos, porque então isso me daria um bom jogo. Ao mostrar alguma veleidade para atacar esse testamento, por ser fundado em um motivo que não posso provar ser exato, o senhor Girardin poderia muito bem, como já disse, tentar evitar um processo que, em qualquer caso, colocá-lo-ia em uma posição desagradável. Comunique todas essas reflexões à Mariette e pergunte-lhe o que ela pensa. O que me dá essa ideia é que os sonâmbulos sempre disseram que pensavam que, por precaução, minha tia acabaria fazendo alguma besteira. Ora, acredito que isso não deu em nada. Se ela tivesse me deixado ao menos uma bagatela, eu não poderia reclamar, porque diriam que minha parte haveria sido cumprida; como não tenho nada, minha posição torna-se mais interessante. Tu fostes bem inspirada de me incitar a não atrasar minha partida; esse atraso, segundo o que me dissestes, não me teria servido de grande coisa em Paris, e me teria sido prejudicial aqui; pois ele ficou muito feliz por eu estar na cerimônia fúnebre; minha presença causou um bom efeito; meio dia de atraso teria me privado dessa possibilidade.

Estou ansioso para saber a decisão do terceiro árbitro no caso <Vitolet>; pergunte à Mariette o que ela pressente e me diga. Parece que meu tio poderia ter se apresentado em meu nome. <Peça> também ao meu tio que consulte a <senhora de B.> a respeito desse assunto o mais cedo possível, e me informe imediatamente; a capacidade dela em decifrar os escritos deve tornar essa busca mais fácil que para qualquer [outro] sonâmbulo. Quanto ao pedido do <Victor> de documentos relativos ao quadro pelo qual foi designado, não sei de quais ele precisa e que eu possa lhe dar. <Não são> a autorização da prefeitura de polícia e as intimações do comissário [ileg.]; eu não [ileg.] tenho outras. Tu deves encontrá-los em uma das gavetas pequenas do meu escritório; deve estar em uma das marcadas aqui por uma cruz.

+
+ +

Acabo de receber a resposta do senhor <Girardin>, que me avisa que a retirada dos selos será amanhã. Anexo uma parte do seu bilhete para te servir junto à Mariette: deixe-a ver se, no momento em que ele escreveu, ele já havia realizado as <aberturas>, o que ele pensa e o que resultará disso.

Segunda-feira, janto na casa do senhor Duhamel, com o senhor <Guemison>. Eu deveria ter ido hoje à casa do <Régallet>, no interior, mas preferi te escrever e assim deixei passar a hora do carro. Amanhã não poderei ir também devido à retirada dos selos. Domingo, uma grande festa em Lyon para a recepção do duque d’Aumale e do 17º regimento de linha, o que me trará sensível prazer, como deves imaginar.

Adeus, minha boa Amélie.

Seu muito afetuoso

H.L.D.R.

P.S.: Como tu não falaste sobre a saúde do meu tio, presumo que ele esteja bem. Receberás esta carta no domingo, e como vais me responder no mesmo dia, não esqueças que as cartas são levadas mais cedo neste dia.

Image description
001
Image description
002
Image description
003
Image description
004

Lyon Vendredi 20 août.

J’ai reçu ta lettre ce matin ma bonne Amélie, elle m’a fait un bien grand plaisir en m’apprenant que ta santé est un peu meilleure; j’espere que tu ne t’arrêteras pas en chemin et que tu feras exactement jusqu’au bout tout ce qui sera prescrit. Quant à moi j’ai une névralgie qui m’a fait souffrir comme un damné pendant quelques jours ; cela va mieux maintenant; mais comme le siège vient d’une inflammation des gencives, il me prend des rages épouvantables quand je me fatigue la mâchoire à manger; ce qui fait que je suis obligé de faire abstinence; comme cela n’est pas dangereux je ne m’en inquiète pas. Je sens d’ailleurs que cela touche à <sa> fin.

Je n’ai rien de nouveau encore quant à mes affaire ici ; sinon que M.r <Girardin> est venu me voir mercredi soir ; soit pour me faire visite, soit pour me prévenir de vive voix (indépendamment du <faire-part> que j’avais reçu) qu’un service serait célébré le lendemain à 9h du matin. Nous avons causé assez longtemps ; mais de choses indifférentes ; j’ai à dessein évité de rien dire que put faire allusion à ma faute.

Lorsque j’ai vu M.r <Girardin> le lendemain de ma visite à M.r <Girardin>, il savait déjà l’effet qu’elle avait produit, par M.r <Laborie> ; M.r <Girardin> avait été fort satisfait ; mais M.r <Laborie> n’avait pu le voir seul et lui parler de l’affaire. Depuis je n’ai pas revu M.r <Quison> ; je suis allé chez lui sans le rencontrer, de sorte que je ne sais ce qui se <sera> passé. Je viens d’écrire un mot à M.r <Girardin> pour lui demander le jour de la levée des scellés ; ce sera en un autre moyen d’avoir de lui quelque chose que je t’enverrai pour consulter.

Je vois avec plaisir la persistance de Mariette dans ses espérances ; cela me donne du courage, et j’avoue que ce sont ces assurances qui m’ont engagé dès l’abord à ne pas lâcher la partie quand j’ai vu comment cela tournait. Ce sont ces mêmes assurances qui m’ont fait me creuser la cervelle pour voir s’il n’y avait pas un moyen quelconque de tirer partie de la position; or voici ce que j’espère: ou M.r Girardin cédant à un esprit d’équité et peut-être d’amour propre me fera une part convenable, ou il refusera. S’il refuse de me faire un abandon, s’il ne veut pas priver ses enfants d’une partie de cette fortune, alors je <le> ferai <sonder> pour m’en céder l’usufruit ce qui ne le priverait pas du fonds et pour moi serait toujours une bonne affaire. Enfin en dernière analyse j’exposerai ma position de manière qu’il ne pourra, sans être dépourvu de cœur, se refuser à me prêter appui et secours pour mes affaires, ne fût-ce qu’à titre de prêt, s’il ne veut pas autrement. J’espère donc que d’une manière ou de l’autre il m’en reviendra quelque chose d’utile. Enfin il peut se présenter une circonstance, mais ceci est plutôt un désir qu’autre chose, qui pourrait peut-être forcer un peu la main à M.r Girardin; c’est dans l’inventaire qui sera fait lors de la levée des scellés. Je n’espère point y trouver de nouvelles dispositions en ma faveur, au contraire ; il se pourrait que dans quelque écrit elle <eût> voulu justifier mon exclusion par quelques causes que je soupçonne, et qui tourneraient à mon avantage, comme p. ex. que je ne suis pas le fils de mon père. Je voudrais pour tout au monde qu’il y <eût> quelque chose de semblable ; car alors cela me donnerait beau jeu. En montrant quelque velléité d’attaquer ce testament, comme étant fondé sur un motif que je ne puis prouver être inexact, M.r Girardin pourrait bien, comme je l’ai dit, chercher à éviter un procès qui, dans tous les cas le mettrait dans une position désagréable. Communique toutes ces réflexions à Mariette et <demande-lui> ce qu’elle en pense. Ce qui me donne cette idée, c’est que les somnambules ont toujours dit qu’elles pensaient qu’à force de précautions ma tante finirait par faire quelque maladresse ; or je crois que c’est en une d’abord de ne m’avoir absolument rien donné. Ne m’<eût>-elle laissé qu’une bagatelle, je n’aurais pu rien réclamer, par ce qu’on aurait dit que ma part avait été faite; n’ayant rien ma position devient plus intéressante. Tu as été bien inspirée de m’engager à ne pas retarder mon départ ; ce retard d’après ce que tu me dis ne m’aurait pas servi à grand-chose à Paris, et m’aurait été préjudiciable ici; car il a été fort heureux que je me sois trouvé à la cérémonie funèbre ; ma présence a été d’un bon effet; une demi-journée de retard m’en <eût> ôté la possibilité.

Il me tarde bien de connaître la décision du tiers arbitre dans l’affaire <Vitolet> ; demande à Mariette ce qu’elle en pressent et fais m’en part. Il me semble que mon oncle aurait pu s’y présenter en mon nom. <Prie> aussi mon oncle de consulter à ce sujet <M.e de B.> le plus tôt possible afin de m’en informer en même temps ; l’aptitude de cette <dernière> à déchiffrer les écrits doit lui rendre cette recherche plus facile qu’à toute autre somnambule. Quant à la demande que fait <Victor> des pièces relatives au tableau pour lequel il est assigné, je ne vois pas quelles sont celles dont il ait besoin et que je puisse lui remettre [illis.] <n’est> l’autorisation de la préfecture de police et les sommations du commissaire [illis.] ; je n’en [illis.] pas d’autres. Tu dois les trouver dans un des petits tiroirs de mon bureau ; ce doit être dans un de ceux du milieu marqué ici par une croix.

+
+ +

Je reçois à l’instant la réponse de M.r <Girardin> qui me prévient que la levée des scellés aura lieu demain. Je joins ici une partie de son billet pour te servir auprès de Mariette, qu’elle voie si au moment où il l’a écrit, il lui avait déjà été fait des <ouvertures> ; ce qu’il pense, et ce qui en résultera.

Je dîne lundi chez Duhamel avec M.r <Guemison>. Je devais aller aujourd’hui à la campagne chez <Régallet>, mais préférant t’écrire, j’ai laissé passer l’heure de la voiture. Je ne pourrai non plus y aller demain à cause de la levée des scellés. Dimanche grande fête à Lyon pour la réception du duc d’Aumale et du 17e régiment de ligne, ce qui me fera un très sensible plaisir, comme tu le penses.

Adieu ma bonne Amélie

Ton bien affectionné

H.L.D.R.

P.S. : Comme tu ne parles pas de la santé de mon oncle, je présume qu’il se porte bien. Tu recevras cette lettre dimanche, et comme tu me répondras le même jour, tu n’oublieras pas que tes lettres sont levées plus tôt ce <jour-là>.