Manuscrito

Cópia carta [DD/MM/AAAA]

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Senhor,

Ao retornar de uma viagem muito longa, encontrei sua carta datada de 18 de setembro, chegada durante minha ausência; tive, a princípio, a intenção de não lhe responder, mas, relendo-a nestes últimos dias, julguei útil fazer-lhe algumas breves observações sobre seu conteúdo.

Direi-lhe primeiramente, senhor, que em relação à primeira, não me teria permitido publicá-la e ainda menos nela colocar o seu nome sem estar formalmente autorizado pelo senhor.

Quanto à segunda, pergunto-lhe: será necessário suprimir as estradas de ferro porque ocorrem acidentes deploráveis, abolir o uso do fogo porque ele causa incêndios, renunciar à química, porque há pessoas que se ferem ou se matam ao experimentar produtos químicos, rejeitar a medicina, porque ela nem sempre cura e há médicos criminosos. Se fosse preciso remover tudo o que pode ser causa de mal, ou tudo aquilo de que se pode abusar, pergunto-lhe o que restaria no mundo. O mal é obra de Deus ou do demônio? Nem de um, nem de outro; mas é simplesmente o resultado da imperfeição, da imprudência e da inexperiência dos homens. É útil, para seu progresso intelectual, que eles adquiram a experiência às suas próprias custas; tais acidentes os levam à reflexão, e eles buscam os meios de evitá-los; assim, vê-se esses mesmos acidentes diminuírem à medida que os homens se tornam mais esclarecidos.

Pois bem! senhor, o que aconteceu com sua parente poderia ter sido evitado com prudência, e um perfeito conhecimento da coisa; ora, o espiritismo não é mais responsável do que a química pelos inconvenientes que atraem aqueles que não estudaram a maneira de utilizá-lo. É uma prova para sua parente, como todas as vicissitudes humanas; é uma também para sua fé, que não pôde resistir a um primeiro revés. Ao repelir a coisa, o senhor repele o único remédio que teria encontrado para o mal.

Recebei, senhor, a expressão dos meus sentimentos mais distintos.

A.K.

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](24)[

Monsieur,

[A / À] mon retour d’un très long voyage, j’ai trouvé votre lettre du 18 septembre arrivée pendant mon absence ; j’avais d’abord eu l’intention de n’y pas répondre, mais en la relisant ces jours-ci, j’ai cru utile de vous faire quelques courtes observations sur son contenu.

Je vous dirai d’abord, Monsieur, qu’à l’égard de la première, je ne me serais pas permis de la publier, et encore moins d’y mettre votre nom sans y être formellement autorisé par vous.

Quant à la seconde, je vous demanderai : s’il faut supprimer les chemins de fer, parce qu’il arrive des accidents déplorables ; abolir l’usage du feu, parce qu’il cause des incendies ; renoncer à la chimie, parce qu’il y a des gens qui se blessent ou se tuent en expérimentant des produits chimiques ; rejeter la médicine, parce qu’elle ne guérit pas toujours et qu’il a des médecins criminels . S’il fallait retrancher tout ce qui peut être une cause de mal, ou tout ce dont on peut abuser, je vous demande ce qui resterait dans le monde. Le mal est-il l’œuvre de Dieu ou celle du démon ? Ni l’un, ni l’autre ; mais [2] tout simplement le résultat de l’imperfection, de l’im- prudence et de l’inexpérience des hommes. Il est utile, pour leur avancement intellectuel qu’ils acquièrent l’expérience à leurs dépens ; ces accidents les font réfléchir, et ils cherchent les moyens de les éviter ; aussi voit-on ces mêmes accidents diminuer à mesure que les hommes deviennent plus éclairés.

Eh bien ! Monsieur, ce qui est arrivé à votre parente pouvait être évité avec de la prudence, et une parfaite connaissance de la chose ; or, le spiritisme n’est pas plus responsable que la chimie des inconvénients que s’attirent ceux qui n’ont pas étudié la manière de s’en servir. C’est une épreuve pour votre parente, comme toutes les vicissitudes humaines ; c’en une aussi pour votre foi, qui n’a pu tenir contre un premier échec. En repoussant la chose, vous repoussez le seul remède que vous eussiez trouvé au mal.

Recevez, Monsieur, l’expression de mes sentiments les plus distingués.

AK

20/09/AAAA Carta de Allan Kardec para Amélie Gabrielle Boudet
20/11/AAAA Rascunho de carta de Allan Kardec para Amélie Gabrielle Boudet
27/11/AAAA Comunicação