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Carta

Carta de Allan Kardec para Amélie Boudet - 04/10/1862

Bordeaux, sábado, 4 de outubro de 1862

Minha boa Amélie, tu deves ter recebido minha carta de ontem [na] rua S.te Anne; endereço-te esta [à] avenida de Ségur, porque chegará no domingo e tu lá estarás.

O que mais me atormentava no prolongamento de minha viagem era te deixar os incômodos do 8; uma vez que tu não tiveste temor acerca disso, aproveitei para completar meu itinerário. A rigor, eu teria podido estar de volta nesse período, mas eu teria de ficar apenas três ou quatro dias em Bordeaux e deixar de visitar algumas cidades; minha viagem teria perdido um pouco de sua utilidade; Bordeaux especialmente reclamava mais tempo.

Recebo em toda parte uma acolhida que não poderia ser mais amigável. O senhor Visconde de Brons é de uma amabilidade perfeita, e ao mesmo tempo de uma grande simplicidade em suas maneiras; não há nele nenhuma arrogância com relação a outros espíritas de classe mais baixa. Almocei ontem com ele, com o senhor e senhora Collignon e outras pessoas na casa do senhor Gougues, onde estive muito contente. A senhora Collignon é uma mulher bem superior e bem meritória, e com isso de uma simplicidade e de uma modéstia que realçam ainda mais seu valor. Sua dedicação à causa, seu caráter conciliador e obsequioso a tornam estimada por todos.

Nada direi do senhor Roustaing, que não pôde vir a Bourdeaux porque está retido, dizem, em sua casa de campo, devido à doença de sua mulher. Creio que minha estadia aqui não aumentará seu crédito.

Todas as noites tenho reuniões, e durante o dia as visitas que não acabam mais. Dois senhores vieram especialmente dos arredores de Bayonne. Tendo em vista o afluxo de visitantes, os sinais de respeito com que me tratam, as trinta pessoas que me acompanharam em minha chegada, os carros que vêm me buscar e me trazem de volta todos os dias, não sei por qual personagem me tomam no hotel; mas de toda forma têm muito respeito por mim.

Ontem à noite houve uma reunião com mais de 200 pessoas, e isso porque o local só comportava entre 100 e 150. Com vários grupos reunidos, mas não sendo possível abrigar a todos, fizemos duas sessões, de modo que esta noite vou repetir a de ontem. Havia na rua uma multidão de pelo menos mil pessoas; um guarda foi colocado à porta. Essa reunião teve um caráter de gravidade e de indescritível solenidade; ao longo das três horas que durou, em meio a essa aglomeração, seria possível ouvir moscas voando. Os discursos foram análogos à circunstância e tomados do caráter mais tocante de simpatia e veneração. Três crianças pequenas vieram me trazer um enorme ramalhete e recitar um texto encantador em versos. Com o ramalhete de flores, fiz uma homenagem à senhora Collignon. Em todos os grupos há muitos e excelentes médiuns.

Tu vês, minha querida amiga, que meu tempo é empregado utilmente, e posso dizer proveitosamente, pois minha estada terá incontestavelmente resultados felizes que, no dizer dos Espíritos, serão bem mais marcados após minha partida.

Fui de tal modo solicitado a ir a Marennes, onde os espíritas são numerosos, apesar das perseguições do clero, e onde minha presença pode ser útil, que considerei: uma vez que estava a caminho, dois ou três dias a mais ou a menos nada eram em tal viagem, e que valia mais, enquanto estou por aqui, fazer o que é necessário. Por isso, parto daqui, como te disse, na terça-feira de manhã, de barco a vapor para Royan, porto de mar ao estuário da Gironde. É um trajeto de quarenta léguas; lá, estarão me esperando com um carro para me conduzir a Marennes. Um dia depois vou a Rochefort, depois para Saint-Jean-d’Angély, para Angoulême, para Poitiers e em seguida para Paris.

Vi o senhor Barbault de la Mothe em Bordeaux; ele irá me esperar em Poitiers; ele quer que eu me hospede em sua casa. Creio que essa visita não será inútil.

Somente no final da semana, sexta-feira ou sábado, estarei em Poitiers, e portanto no domingo em Paris; quanto ao mais, eu te escreverei o dia e a hora.

Haverá ainda uma sessão da sociedade à qual não poderei assistir; mas acho que estamos bastante acostumados com os trabalhos para não nos envergonharmos. Não posso delinear aqui o programa; basta seguir o procedimento comum. Ademais, vou escrever uma carta para ser lida em sessão.

Domingo, 5.

O homem propõe e Deus dispõe; impossível terminar minha carta ontem; interrompido pelas visitas, fui forçado a sair para almoçar na cidade – na casa de um médico cuja esposa é uma descendente em linha direta do imperador Montezuma. Isso me reteve mais do que eu queria, e quando voltei a hora do correio já havia passado.

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Bordeaux, Samedi 4 8bre 1862,

Ma bonne Amélie, tu as dû recevoir ma lettre d’hier rue S.te Anne ; je t’adresse celle-ci avenue de Ségur, parce qu’elle arrivera dimanche et que tu y seras.

Ce qui me tourmentait le plus dans la prolongation de mon voyage c’était de te laisser les embarras du 8 ; puisque tu ne t’en es pas effrayée, j’en ai profité pour compléter ma tournée. À la rigueur j’aurais pu être de retour à cette époque, mais il m’eut fallu ne rester que 3 ou 4 jours au plus à Bordeaux et renoncer à visiter certaines villes ; mon voyage eut perdu de son utilité ; Bordeaux surtout réclamait plus de temps.

J’y reçois partout un accueil on ne peut plus amical. M.r le V.te de Brons est d’une amabilité parfaite, et en même temps d’une grande simplicité dans ses manières ; il n’y a chez lui aucune morgue vis-à-vis des autres spirites d’une classe inférieure. J’ai déjeuné hier avec lui, M.r et M.me Collignon et d’autres personnes chez M.r Gougues dont j’ai lieu d’être très content. M.me Collignon est une femme bien supérieure et bien méritante, et avec cela d’une simplicité et d’une modestie qui en rehausse encore le prix. Son dévoûment à la cause, son caractère conciliant et obligeant la font estimer de tout le monde.

Je ne dirai rien de M.r Roustaing, parce que retenu, dit-on à sa campagne par la maladie de sa femme, il n’a pu venir à Bordeaux ; je crois que mon séjour ici n’augmentera pas son crédit.

Tous les soirs j’ai des réunions, et dans la journée les visites qui ne décessent pas. Deux messieurs sont venus tout exprès des environs de Bayonne. D’après l’affluence des visiteurs, les marques de respect qu’ils me donnent, les 30 personnes qui m’ont accompagné à mon arrivée, les voitures qui viennent me chercher et me ramènent tous les jours, je ne sais pour quel personnage on me prend à l’hôtel ; mais dans tous les cas on y a pour moi beaucoup d’égards.

Hier soir c’était une réunion de plus de 200 personnes, seulement, parce que le local n’en comporte que 100 à 150. Plusieurs groupes s’étant réunis, et tous ne pouvant tenir, on a fait deux séances, de sorte que ce soir j’ai la répétition d’hier. Il y avait dans la rue une foule d’au moins mille personnes ; on avait mis un factionnaire à la porte. Cette réunion a eu caractère de gravité et de solennité indescriptible ; pendant 3 heures qu’a duré la séance, au milieu de cette cohue, on aurait entendu voler les mouches. Les discours ont été analogues à la circonstance et empreints du plus touchant caractère de sympathie et de vénération. Trois jeunes enfants sont venus m’apporter un énorme bouquet et réciter une charmante adresse en vers. {J’ai fait hommage du bouquet à M.me Collignon.} Dans tous les groupes il y a de nombreux et excellents médiums.

Tu vois, ma chère amie, que mon temps est utilement employé, et je puis dire fructueusement, car mon séjour aura incontestablement d’heureux résultats qui, au dire des Esprits, seront bien plus marqués après mon départ.

J’ai été tellement sollicité d’aller à Marennes, où les spirites sont nombreux, malgré les persécutions du clergé, et où ma présence peut être utile, que je me suis dit que puisque j’étais en route 2 ou 3 jours de plus ou de moins n’étaient rien dans un pareil voyage, et qu’il valait mieux, pendant que j’y suis, faire ce qui est nécessaire. En conséquence je pars d’ici, comme je te l’ai dit, mardi matin, par le bateau à vapeur pour Royan, port de mer à l’embouchure de la gironde ; c’est un trajet d’une quarantaine de lieues ; là on vient m’attendre avec une voiture pour me conduire à Marennes. Le lendemain je vais à Rochefort, puis à S.t Jean d’Angély, à Angoulême, à Poitiers, puis à Paris.

J’ai vu M.r Barbault de la Mothe à Bordeaux ; il m’attendra à Poitiers ; il veut que je descende chez lui. Je crois que cette visite ne sera pas inutile.

Je ne serai que vers la fin de la semaine, vendredi ou samedi à Poitiers et par conséquent vers dimanche à Paris ; du reste je t’écrirai le jour et l’heure.

Ce sera encore une séance de la société à laquelle je ne pourrai assister ; mais je crois qu’on a assez l’habitude des travaux pour n’être pas embarrassé. Je ne puis en tracer ici le programme ; il suffit de se conformer à la marche accoutumée. Du reste d’ici là, j’écrirai une lettre pour être lue en séance.

Dimanche 5.

L’homme propose et Dieu dispose ; impossible hier de terminer ma lettre ; des visites m’ayant interrompu, j’ai été forcé de sortir pour aller déjeuner en ville - chez un médecin dont la femme est une descendante en ligne directe de l’empereur Montezuma. - On m’a retenu plus que je ne voulais, et quand je suis rentré, l’heure du courrier était passée.