Item

165F
Carta

Carta de Allan Kardec para Amélie Boudet - 12/10/1843

[Carimbo] 12 OUT <42>

]Senhor Rivail à[

Senhora

Senhora Rivail

À casa do senhor Boudet, proprietário.

Em Chateau-du-Loir

Sarthe

Paris, 12 de outubro de 1843.

Recebi ontem tua carta, minha querida Amélie; eu a esperava com impaciência, ainda que sem me surpreender por não a receber antes, prevendo um desses atrasos tão comuns nesse trajeto; mas o que eu não esperava [ouvir] era o acidente, que poderia ter tido consequências muito desagradáveis; felizmente, ele só teve como resultado o desconforto de dormir na estrada, o que foi compensado pela alegria dos viajantes. Para ser mais emocionante, uma viagem precisa de algum acontecimento, que pode ser aumentado um pouco, para tornar a coisa mais interessante, mas parece que esse era bem grave; todavia, como há muito pouca água no [rio] Loire, e como em casos assim o socorro é bem rápido, gosto de pensar que o naufrágio não teve os efeitos funestos de que tu falas. Enfim, vocês estão bem, isso é o essencial. Soube, com muito prazer, que teus bons pais estão igualmente saudáveis; tua visita lhes será, estou certo disso, mais salutar do que todos os medicamentos. Quanto a mim, estou perfeitamente bem, assim como todos os outros. Meu tio está cada vez melhor; ele está visivelmente retomando as forças.

Vi o senhor Joyeux; como eu previa, o negócio está perdido para este ano, e provavelmente para o ano que vem. Eu quase duvidava disso, ele visitou os locais e lá perdeu dinheiro; não com nosso método, e sim com um sistema próprio. Além disso, ele havia obtido não mais do que 1800 francos, metade dos quais perdeu. Entendes [por] que não me sinto constrangido ao lhe desmascarar o seu procedimento de nos ter enganado durante quatro meses, de vir nos dizer que já era tarde demais naquela época, que ele veria para o próximo ano; mas que, de resto, o que o fazia hesitar era que ele achava que seria preciso muito tempo para ganhar uma certa quantia.

Em resumo, compreendes que ele só pôde me dar razões muito ruins, ao passo que a mim não faltaram bons argumentos para lhe rebater. Além disso, ele foi para negociar a compra da empresa em nome de uma pessoa de seu conhecimento; ele me mostrou documentos que o provam. Meu tio pensou, e concordo plenamente com sua opinião, que não lhe faltou boa vontade, mas sim dinheiro suficiente; que ele foi com a esperança de ser talvez favorecido por uma boa sorte e de fazer o negócio com os fundos que ele teria ganho; sem isso, eu não compreenderia seu objetivo ao me dizer que partiríamos em seu retorno e ao nos arrastar como ele fez; há, aliás, muitos fatos que parecem provar que sua intenção era séria; sem dúvida, ele não quis admitir que não tinha fundos suficientes. Acredito então que não devemos mais contar com ele; vou ver o senhor Grimaldi para lhe falar de tudo isso. Afora essa novidade, não tenho nada de novo para te contar; ainda não há nada decidido com relação ao teatro e à companhia de seguros.

Quanto ao teatro, o senhor <Demonval> viu o proprietário, que está encantado por ser para ele e apresentou suas condições; ele pede 350 mil francos, dos quais 100 mil em dinheiro, e o restante podendo ser pago anualmente, a partir dos produtos que serão garantidos. Trata-se então de encontrar 100 mil francos até o dia primeiro de janeiro, soma que não se levanta como se fosse alguns centavos; assim que ele tiver o seu privilégio, será muito mais fácil; além disso, ainda não sei como e sob quais condições eu poderia aí entrar. Se eu não encontrasse nisso uma vantagem bem segura, eu preferiria renunciar a isso; ora, como haverá muito a ser pago sobre os benefícios, e isso durante um certo número de anos, tanto em vista dos juros devidos quanto para quitar o valor de aquisição, temo que não restará muito a ser partilhado, e que as vantagens serão mais para o futuro do que para o presente, o que não seria o meu caso. Não falamos a esse respeito com o senhor <Demonval>, mas o cálculo que fiz me faz temer. De resto, se eu não encontrar uma oportunidade para fazer o negócio por minha conta, não deixarei de tentar negociá-lo para outros, porque sempre encontraria meio de obter alguma coisa.

Como agora está decidido que não irei este ano à Alemanha, talvez não seja impossível que eu vá te buscar e passar alguns momentos junto de teus pais; eu ficaria bem feliz em abraçá-los, depois do tempo que não tive mais o prazer de vê-los; mas isso vai depender do que poderá me deter aqui e necessitar minha presença; só poderei saber disso daqui a algum tempo; enquanto isso, recebe a certeza de meu sincero amor e meus abraços. Abraça por mim teus bons pais e diz-lhes o quanto eu ficaria feliz se puder escapar por um momento para ir ao encontro deles.

Tu não esquecerás minha pequena Louise, a quem não tenho tempo de escrever hoje; ficará para uma próxima vez. Félicité também não teve tempo senão para escrever uma breve nota aqui em anexo.

Adeus, minha boa Amélie, teu muito amado,

H.L.D.R.

P.S. A senhora de Croze me falou do casamento em questão, de uma família que seria muito adequada e que é do conhecimento íntimo da senhora Martin; aguardo ansiosamente a volta desta última para inteirá-la disso, assim como à senhora Musset, para aquela com cicatriz. Quanto à de Felicité, ela só tem 14 anos e meio. Acredito que conseguiremos avançar nessa iniciativa, a qual só poderia ter um bom resultado, pois não há dúvida que meu tio encontrou nela um meio de empreender a sua [iniciativa].

Não ouvi mais falar dos Pitolet, é como se eles não existissem; o senhor Moullins, porém, está de volta.

Não vi a senhora <Henri>.

Janto esta noite na casa dos Cassins, que te fazem mil elogios.

Aqui chove muito, mas com borrascas; às vezes faz bom tempo; de resto, o clima é muito ameno; não está nada frio, o que me agrada muito.

Image description
001
Image description
002
Image description
005
Image description
006
Image description
007

[Cachet] 12 OUT <42>

]M.r Rivail à[

Madame

Madame Rivail

Chez M.r Boudet propr.e

À Chateau du Loir

Sarthe

Paris le 12 8bre 1843,

J’ai reçu hier ta lettre ma chère Amélie ; je l’attendais avec une impatience, sans trop m’étonner pourtant de n’en avoir pas eu la veille, prévoyant un de ces retards si ordinaires par cette route, mais ce à quoi je ne m’attendais pas c’est à l’accident qui aurait pu avoir des suites <si> fâcheuses ; heureusement qu’il n’en est rien résulté que le désagrément de coucher en route, compensé par la gaîté des voyageurs. Pour être plus piquant un voyage a besoin de quelque épisode, qu’il est permis d’enfler un peu pour rendre la chose plus intéressante ; mais celui-ci était à ce qu’il paraît très sérieux ; toutefois comme il y a très peu d’eau dans la Loire, et qu’en pareil cas les secours sont très prompts, j’aime à penser que le naufrage n’eut pas eu les suites funestes dont tu parles. Enfin vous vous portez bien, c’est là l’essentiel. J’ai appris avec infiniment de plaisir que tes bons parents sont également en bonne santé ; ta visite leur sera j’en suis sûr plus salutaire que tous les médicaments. Quant à moi je me porte parfaitement bien, ainsi que tout le monde. Mon oncle continue à aller de mieux en mieux ; il reprend visiblement des forces.

J’ai vu M.r Joyeux ; comme je le prévoyais l’affaire est manquée pour cette année, et probablement pour l’année prochaine. Ce dont je me doutais presque, il est allé sur les lieux, et y a perdu de l’argent ; non point avec notre méthode, mais avec un système à lui ; du reste il n’avait emporté que 1800f. dont il a perdu la moitié. Tu conçois que je ne me suis pas gêné pour lui dire son fait sur son procédé de nous avoir bernés pendant 4 mois, pour venir nous dire que la saison était trop avancée ; qu’il verrait l’année prochaine ; mais qu’au reste ce qui le fait hésiter c’est qu’il trouve qu’il faut trop de temps pour gagner une certaine somme.

En résumé tu conçois qu’il n’a pu me donner que de très mauvaises raisons, tandis que je n’en ai pas manqué de bonnes pour le rétorquer. Il a du reste été là bas pour négocier l’<achat> de l’entreprise pour le compte d’une personne de sa connaissance ; il m’a montré des documents qui le prouvent. Mon oncle a pensé, et je partage tout à fait son opinion, que la bonne volonté ne lui a pas manqué, mais bien l’argent suffisant ; qu’il y est allé avec l’espoir d’être peut-être favorisé par une bonne veine, et de faire l’affaire avec les fonds qu’il aurait gagnés ; sans cela je ne comprendrais pas son but en me disant que nous partirions à son retour, et en nous traînant comme il l’a fait ; il y a plusieurs faits qui paraissent prouver d’ailleurs que son intention était sérieuse ; il n’aura sans doute pas voulu convenir qu’il n’avait pas assez de fonds. Je crois donc qu’il ne faut plus compter sur lui ; je vais aller voir M.r Grimaldi pour lui parler de tout cela. Cette nouvelle à part, je n’ai rien de nouveau à t’apprendre ; il n’y a encore rien de décidé pour le théâtre ni pour la société d’assurance.

Pour le théâtre M.r <Demonval> a vu le propriétaire qui est charmé que ce soit pour lui et qui lui a fait connaître ses conditions ; il demande 350 <mille f.> dont 100 mille f. comptant, et le reste payable d’année en année sur les produits qui sont garantis. Il s’agit donc de trouver 100 mille francs d’ici au 1er janvier, et on ne les trouve pas comme cent sous ; dès qu’il aura son privilège, cela sera beaucoup plus facile ; du reste je ne sais encore comment et à quelles conditions je pourrais y entrer ; si je n’y trouvais pas un avantage bien certain, j’aimerais mieux y renoncer ; or comme il y aura énormément à payer sur les bénéfices, et cela pendant un certain nombre d’années, tant pour intérêts dûs, que pour parfaire le prix d’acquisition, je crains bien qu’il ne reste pas beaucoup à partager, et que les avantages soient plus dans l’avenir que dans le présent, ce qui ne serait pas mon affaire. Nous n’en avons point parlé avec M.r <Demonval>, mais le calcul que j’ai fait me le fait craindre. Du reste si je ne voyais pas jour à faire l’affaire pour mon compte, je n’en chercherais pas moins à la négocier pour d’autres, parce que je trouverais bien toujours moyen d’en tirer quelque chose.

Comme il est décidé maintenant que je n’irai pas en Allemagne cette année, il n’y aurait peut-être pas impossibilité à ce que j’allasse te chercher et passer quelques instants auprès de tes parents que je serais bien aise d’embrasser, depuis le temps que je n’ai eu le plaisir de les voir ; mais cela dépendra de ce qui pourra me retenir ici et nécessiter ma présence ; je ne pourrai le savoir que <dans> quelques temps ; en attendant reçois l’assurance de mon bien sincère attachement et mes embrassements. Embrasse pour moi tes bons parents et dis leur combien je serais charmé si je puis m’échapper un moment pour <aller> le passer auprès d’eux.

Tu n’oublieras pas ma bonne petite Louise à laquelle je n’ai pas le temps d’écrire aujourd’hui ; ce sera pour une autre fois. Félicité n’a eu également le temps que d’écrire le petit mot ci-joint.

Adieu ma bonne Amélie ton bien affectionné

H.L.D.R.

P.S. M.ad de Croze m’a parlé pour le mariage en question d’une famille qui conviendrait très bien, et qui est de la connaissance intime de M.ad Martin ; j’attends avec impatience le retour de cette dernière pour lui en parler, ainsi que M.ad Musset, pour celle à la cicatrice. Quant à celle de Félicité, elle n’a que 14 ½ ans. Je crois que nous pourrons parvenir à emmancher cette affaire, ce qui ne pourrait qu’avoir un bon résultat ; car nul doute que mon oncle y trouvât le moyen d’entreprendre la sienne.

Je n’ai pas plus entendu parler des Pitolet que s’ils n’existaient pas ; cependant M.r Moullins est de retour.

Je n’ai pas vu M.ad <Henri>.

Je dîne ce soir chez les Cassins qui te font mille compliments.

Il pleut beaucoup ici, mais par bourrasques ; quelquefois il fait assez beau ; du reste le temps est très doux ; il ne fait nullement froid ce qui me va parfaitement.