Manuscrito
Meu caro Senhor Babin,
Recebi sua graciosa carta assim como os exemplares de sua nova edição. Não pude fazer chegar ao senhor Roze aquilo que lhe era destinado, visto que ele faleceu há um ano.
Ao felicitá-lo novamente, caro senhor, pelo objetivo eminentemente filantrópico e desinteressado que o senhor se propôs com esta publicação, permita-me algumas observações.
O pequeno tratado de astronomia da primeira edição estava muito bom; trata-se de uma exposição clara destinada a vulgarizar os princípios elementares da ciência. É muito lamentável que, na nova edição, o senhor julgou dever adicionar a teoria da formação da Terra por incrustação, contida na obra do senhor Roze. O erro dessa teoria, que tinha, à primeira vista, seduzido algumas pessoas, é demonstrado da maneira mais positiva pelas observações da ciência, e não resiste a um exame sério. Ao introduzi-la em seu livro, está a se popularizar uma ideia radicalmente falsa, e o que é mais lamentável, é fazê-lo em nome do Espiritismo, o que, necessariamente, fornece uma arma fundada à crítica.
A obra do senhor Roze contém outros erros não menos graves em contradição flagrante com a lógica sã e o ensino geral dos Espíritos, e que foi desacreditada completamente perante a opinião da imensa maioria dos espíritas. Por isso o senhor nunca me viu recomendar o livro dele na Revue. Se eu não o refutei abertamente, foi por consideração ao autor; mas ao me abster de falar dele e mesmo de o anunciar, isso bastava para dizer que ele não podia ser aprovado, pois do contrário, creia bem, teria feito questão de elogiá-lo e propagá-lo.
Se o senhor perguntasse como se faz que erros científicos tão evidentes sejam assinados com o nome de Arago, eu lhe responderia que isso prova que não é ao nome que se deve apegar, mas ao conteúdo do pensamento. O senhor não se surpreenderia que o senhor Roze se tenha deixado enganar por essa mistificação, se tivesse conhecido, como nós tivemos ocasião de conhecer, a obsessão e a fascinação que pesaram sobre ele durante os últimos seis anos de sua vida. Por sua obstinação em rejeitar os conselhos que lhe eram dados por seus amigos íntimos, ele se colocou sob o jugo de Espíritos que, ao iludi-lo quanto ao seu próprio mérito e à infalibilidade de seu julgamento, lançaram-no nas desgraças que o enfraqueceram até seus últimos momentos. Basta isso para lhe dizer que nem Arago, nem nenhum dos grandes Espíritos cujos nomes figuram ao final de suas comunicações, puderam ter contribuído para seu trabalho.
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Mon cher Monsieur Babin,
J’ai reçu votre gracieuse lettre ainsi que les exemplaires de votre nouvelle édition. Je n’ai pu faire parvenir à M. Roze ce qui lui était destiné, attendu qu’il est mort depuis un an.
En vous félicitant de nouveau, cher Monsieur, du but éminemment philanthropique et désintéressé que vous vous êtes proposé par cette publication, permettez-moi quelques observations.
Le petit traité d’astronomie de la première édition était très bien ; c’est un exposé clair destiné à vulgariser les principes élémentaires de la science. Il est très regrettable que, dans la nouvelle édition, vous ayez cru devoir y ajouter la théorie de la formation de la terre par incrustation contenu dans l’ouvrage de M. Roze. L’erreur de cette théorie, qui avait, au premier abord, séduit quelques personnes, est démontrée de la manière la plus positive par les observations de la science, et ne suporte pas un examen sérieux. En l’introduisant dans votre livre, c’est populariser une idée radicalement fausse, et ce qui est le plus fâcheux, c’est de le faire au nom du spiritisme, ce qui, nécessairement, fournit une arme fondée à la critique.
[2] L’ouvrage de M. Roze contient d’autres erreurs non moins graves en contradiction flagrante avec la saine logique et l’enseignement général des Esprits, et qui l’ont complètement discrédité dans l’opinion de l’immense majorité des spirites. Aussi ne m’avez-vous jamais vu recommander son livre dans la Revue. Si je ne l’ai pas réfuté ouvertement, c’était par égard pour l’auteur ; mais en m’abstenant d’en parler et même de l’annoncer, c’était assez dire qu’il ne pouvait être approuvé, sans cela, croyez bien que je me serais fait un devoir de le louer et de le propager.
Si vous demandiez comment il se fait que des erreurs scientifiques aussi palpables soient signées du nom d’Arago, je vous répondrai que cela prouve que ce n’est pas au nom qu’il faut s’attacher, mais au fond de la pensée. Vous ne seriez pas surpris que M. Roze se soit laissé prendre à cette mystification, si vous aviez connu, comme nous avons été à même de le faire, l’obsession et la fascination qui ont pesé sur lui pendant les six dernières années de sa vie. Par son obstination à repousser les conseils qui lui étaient donnés par ses amis intimes il s’est placé sous le joug d’Esprits qui, en l’abusant sur son propre mérite et l’infaillibilité de son jugement, l’on plongé dans les malheurs qui l’ont affaibli jusqu’à ses derniers moments. C’est assez vous dire que ni Arago, ni aucun des grands Esprits dont les noms figurent au bas de ses communications, n’ont pu concourir à son travail.