Manuscrito
]Sociedade
5 de janeiro de 1866[
A filosofia e o Espiritismo
Senhora <Chles> Breul
5 de janeiro de 1866
]M.M.B.[
A filosofia tornou-se algo muito conhecido pelo nome, mas bem pouco pela realidade. Até agora, tem sido um desses nomes pomposos com os quais condecoramos alguns homens, e ainda mais certas obras. Não quero dizer que esses homens não mereçam o título de filósofos, mas sim que lhes foi dado sem percebermos o alcance e mesmo o sentido da palavra.
A filosofia, até hoje, tem sido um pretexto para divagações sem fim. Aqueles que pretendem envolver-se com ela acumulam hipóteses sobre hipóteses e, como os semelhantes se atraem, restam somente mais hipóteses. Eis, assim, a filosofia tornada a ciência das hipóteses. Francamente, estamos corretos por ocuparmo-nos com realidades; pelo menos não se perde tempo. É verdade que essas hipóteses são magníficas, possíveis, que elevam a alma e a desprendem das coisas materiais, mas por que querem que tenhamos tanta confiança em uma série de simples suposições? De fato, com estas não fazemos nada, mas com a realidade fazemos tudo.
Não é surpreendente, portanto, que, enjoado de um falatório sem fim e sem sentido, este século incline-se tanto para os interesses materiais e seja, embora bem menos há algum tempo, tão hostil às concepções espirituais.
A filosofia é uma ciência em estado muito singular: outrora, ela quis estudar o mundo, depois quis estudar o homem, mas agora ela estuda quase tão somente sistemas. Além disso, poucos a consideram uma /2/ ciência séria e verdadeira. A filosofia, porém, tem um caminho bastante trilhado; os marcos estão bem plantados, mas o inconveniente é a dificuldade para uni-los, e em vez de tentar juntá-los com base na realidade, ela prefere ligá-los por concepções ideais; é mais simples, mas não vale nada. Igualmente, os sistemas filosóficos são um modismo, e variam tanto quanto a própria moda; a única condição de sua duração é o capricho. Por que é assim? Porque a filosofia, em vez de aceitar, como as outras ciências, apenas após observações minuciosas, faz o contrário, e parece que a máxima dos filósofos é: o que imaginei é a realidade, pois eu o imaginei. Ora, isso não significa nada, e não é uma comprovação da realidade.
A filosofia deve, portanto, entrar em um novo caminho se ela quiser se colocar entre as ciências positivas. Para isso, será preciso admitir apenas as evidências, e o que é demonstrado por consequências rigorosas. Quanto ao resto, ela deve dizer: eu não sei, em vez de lançar-se ao erro para querer parecer douta.
O Espiritismo vem trazer uma feliz contribuição para a filosofia; fornece a ela os dados preciosos que lhe faltavam, e cujo desconhecimento era uma fonte de suposições errôneas, a saber: o estado das almas após a morte corporal e a harmonia do mundo extracorpóreo. Certamente, vocês não podem verificar isso pelos seus sentidos, mas podem dar autoridade ao nosso testemunho, filosoficamente falando. O que lhes ensinamos não é contrário à razão, é uma hipótese parecida com outras, mas que tem a vantagem de poder ser verificada pela experiência /3/ e pela experiência sensível.
Chegará o dia, digo-lhes, em que a filosofia será uma ciência, quando homens talentosos se esforçarão para conduzi-la a esse objetivo. Ela se tornará uma ciência comum, pois seu objeto é a ciência da natureza humana, dos deveres do homem e da existência de um Ser superior, que é o que todos devem saber; mas ela não será uma filosofia pedante e escolástica, será uma ciência simples, fácil e clara, embora severa e rigorosa.
Cabe ao Espiritismo a honra dessa transformação, pois deve ele ser a luz que iluminará um dia toda a humanidade.
Protetor



]Société
5 Janvier 1866[
La philosophie et le Spiritisme
Mm <Chles> Breul
5 Janvier 1866.
]T.T.B.[
La philosophie est devenue quelque chose de bien connu par le nom, mais très peu par la réalité. Jusqu’à présent elle a été un de ces noms pompeux dont on décore certains hommes, et encore plus certains ouvrages. Je ne veux pas dire que ces hommes ne méritassent pas le nom de philosophes, mais bien qu’on le leur a donné sans se rendre compte de la portée, et même du sens du mot.
La philosophie, jusqu’à nos jours, a été un prétexte de divagations sans fin. Ceux qui ont la prétention de s’en occuper entassent hypothèses sur hypothèses, et comme les semblables se génèrent, il ne résulte encore que des hypothèses. Voilà donc la philosophie devenue la science des hypothèses. Franchement on a tout autant raison de s’occuper de réalités; au moins l’on ne perd pas son temps. Il est vrai que ces hypothèses sont magnifiques, possibles, qu’elles élèvent l’âme et la détachent des choses matérielles, mais pourquoi voulez-vous qu’on ait tant de confiance en une série de simples ]suppositions?[ En effet avec celles-ci on ne fait rien, avec la réalité on fait tout.
Il n’y a donc pas lieu de s’étonner que, dégouté d’un bavardage sans fin et sans raison, ce siècle penche tant du côté des intérêts matériels, et soit, quoique bien moins depuis quelque temps, si hostile aux conceptions spirituelles.
La philosophie est une science dont l’état est bien singulier: autrefois on a voulu étudier le monde, puis on a voulu étudier l’homme; mais maintenant, au fond, on n’étudie guère plus que des ]systèmes[. Aussi, peu de personnes la regardent-elle<s> comme une /2/ science sérieuse et véritable. Pourtant la philosophie a une route bien tracée; les jalons sont assez bien plantés, mais le malheur c’est qu’on a de la peine à les réunir, et qu’au lieu de chercher à les relier par la réalité, on aime mieux les relier par des conceptions idéales; c’est plus aisé, mais cela ne vaut rien. Aussi les systèmes philosophiques ne sont qu’une mode, et varient aussi souvent que la mode elle-même; la seule condition de leur durée est le caprice. Pourquoi cela? C’est que la philosophie au lieu de n’admettre, comme les autres sciences, qu’après de minutieuses observations fait le contraire, et il semble que les philosophes aient pour maxime: ce que j’ai imaginé est la réalité, car je l’ai imaginé; or cela ne veut rien dire du tout, et ce n’est pas là une preuve de la vérité.
La philosophie doit donc entrer dans une nouvelle voie si elle veut prendre rang parmi les sciences positives. Pour cela il ne faudrait admettre que l’évidence, et ce qui est démontré par des conséquences rigoureuses; sur le reste il faudrait dire: je ne sais pas, plutôt que de se jeter dans l’erreur pour vouloir paraître savant.
Le Spiritisme vient apporter un heureux concours à la philosophie; il lui fournit les données précieuses qui lui manquaient auparavant, et dont l’ignorance était une source de suppositions erronées, savoir : l’état des âmes après la mort corporelle, et l’harmonie du monde extra corporel. Certes vous ne pouvez pas vérifier cela par vos sens, mais vous pouvez accorder de l’autorité à notre témoignage, philosophiquement parlant. Ce que nous vous enseignons ne répugne pas à la raison, c’est une hypothèse qui ressemble aux autres, mais qui a le bonheur de pouvoir être vérifiée par l’expérience /3/ et par l’expérience sensible.
Il arrivera, je vous le dis, le jour où la philosophie sera une science, et où des hommes de talent s’efforceront ]de la conduire à ce but[. Elle deviendra une science vulgaire, car son objet est la science de la nature humaine, des devoirs de l’homme et de l’existence d’un Être supérieur, ce que tout le monde doit savoir; mais ce ne sera pas une philosophie pédante et scolastique, ce sera une science simple, facile et claire, quoique sévère et rigoureuse.
C’est au Spiritisme que doit revenir l’honneur de cette transformation, car le Spiritisme doit être la lumière qui éclairera un jour toute l’humanité.
Protecteur.