Manuscrito
Paris, 12 octobre 1861.
Senhor Roustaing em Bordeaux.
Resposta a sua carta de 08 de outubro de 1861.
Meu caro Senhor,
Recebi sua última carta, de 8 do corrente, a que me apresso a responder ao mesmo tempo que lhe falarei da precedente, sobre a qual, após tê-la relido atentamente, não tenho senão pouca coisa a dizer, salvo que as comunicações que ela acompanha são excelentes e muito notáveis e que as coloco junto às que devem figurar numa nova obra que vou publicar dentro em breve. Seria muito de desejar que os conselhos que elas contêm fossem seguidos por todos os que as leram. Infelizmente, há muita gente que se limita a admirar as lições dos Espíritos, e que as aplica aos outros sem as aplicar a si mesmas; sempre a história da trave no olho.
A obsessão de seu eremita no fundo da mata é notabilíssima ; faremos oportunamente um estudo a respeito.
Quanto ao objetivo especial de sua última carta, dir-lhe-ei, meu caro Senhor, que os motivos que o senhor tem em grande conta para me dissuadir de ir a Bordeaux são precisamente os que me induziram a ir, se eu não estivesse decidido a isso e se, doutro lado, os Espíritos não me houvessem aconselhado e, mesmo, prescrito que fosse. Não vou lá nem alhures para ter uma recepção, mas para dar os conselhos que me foram pedidos e que me solicitam com instância. Se a Sociedade Espírita Bordalesa ainda está na infância, é razão a mais para eu visitá-la, pois a infância precisa de mais cuidados do que a idade madura. Se já fosse adulta e já andasse sem amarras, minha presença lá seria inútil, pois, que eu saiba, médicos não são consultados por pessoas que estão passando bem. Se há ferida e sou chamado, é preciso que eu a examine. Querendo dissuadir-me de ir sondá-la, sem dúvida o senhor pensa que ela pode cicatrizar-se sem mim; eu creria nisso sem hesitação, se todos os que se dizem espíritas nela pusessem o dedo, fazendo-o com abnegação de sua personalidade e de seu amor próprio, pois é por esse sacrifício que o verdadeiro espírita é reconhecido; sem isso só o é de nome. Também se pode reconhecê-lo pelo seu zelo efetivo, por sua perseverança em lutar contra os obstáculos e as dificuldades. O senhor diz que me chamará quando tudo aí estiver indo bem. Certamente, não tenho a presunção de crer-me indispensável para fazer a barca andar; outros podem tão bem quanto eu pô-la a flutuar. Mas, visto como o senhor me honrou generosamente com o título de chefe, convenha que seria pregar triste peça ao general chamá-lo após a vitória. Diz ainda o senhor que eu só teria decepções; supõe então que só encontro rosas em meu caminho? Se eu tivesse de recuar a cada espinho que se me deparasse, não teria nada melhor a fazer do que ficar em casa e aí viver tranquilo, deixando os outros se desembaraçarem como puderem; depois, quando toda tarefa estivesse feita, apresentar-me para receber as honrarias. Francamente, caro Senhor, eu acreditava que o senhor tivesse de mim melhor opinião. Não, Senhor, eu não vou a Bordeaux para me ostentar, e desejo que todos os seus confrades em espiritismo me estimem suficientemente para me crer acima de tais puerilidades,
Parto hoje mesmo para Bordeaux; aceito o convite do Senhor Sabò para me hospedar em casa dele, na rua Mazarin no 2. Se é lá que está o perigo, é preciso que eu o verifique com meus próprios olhos. Sei que essa família não vive na alta sociedade bordalesa; que sua vida é bastante modesta; mas eu não sou um príncipe e, como espírita, não tenho em vista uma recepção de príncipe que ficaria em contradição com os princípios que professo.
Fique perfeitamente tranquilo a respeito de sua última carta confidencial; tirarei dela o que me aproveita, mas não falarei delas, aparentarei não ter notícias do senhor desde muito tempo.
Creia, meu caro Senhor, que será para mim uma bem grande satisfação ir à sua casa de campo e dar-lhe um aperto de mão, se me sobrar tempo; mas como ficarei poucos dias, não sei se terei ensejo de dar-me essa alegria.
Seu atento amigo,
Allan Kardec
Paris, 12 octobre 1861
Monsieur Roustaing à Bordeaux
Réponse à sa lettre du 8 octobre 1861
Mon cher Monsieur,
J’ai reçu votre dernière lettre du 8 courant à laquelle je m’empresse de répondre en même temps que je vous parlerai de la précédente sur laquelle, après l’avoir relue attentivement, je n’ai que peu de choses à dire, sinon que les communications qu’elle renferme sont excellentes et très remarquables, et que je les mets au rang de celles qui doivent figurer dans un nouvel ouvrage que je vais publier prochainement. Il serait bien à désirer que les conseils qu’elles renferment fussent suivis par tous ceux qui les liront ; malheureusement, il y a tant de gens qui se bornent à admirer les leçons des Esprits, et qui les appliquent aux autres, sans les appliquer à eux-mêmes ; toujours l’histoire de la poutre dans l’œil.
L’obsession de votre ermite au fond des bois est très remarquable ; nous ferons prochainement une étude à ce sujet.
Quant à l’objet spécial de votre dernière lettre, je vous dirai, mon cher [2] Monsieur, que les motifs que vous faites valoir pour me détourner d’aller à Bordeaux, sont précisément ceux qui m’engageraient à y aller si je n’y étais décidé et si, d’un autre côté, les Esprits ne me l’avaient conseillé, et même prescrit. Je ne vais pas plus là qu’ailleurs pour avoir une réception, mais pour donner les conseils qu’on me demande et qu’on sollicite avec instance ; si la Société Spirite Bordelaise est encore dans l’enfance, c’est une raison de plus pour la visiter, parce que l’enfance a besoin de plus de soins que l’âge mûr. Si elle était adulte, et marchait sans lisières, ma présence y serait inutile ; je ne sache pas que les médecins aillent faire leurs visites aux gens qui se portent bien. S’il y a du mal, il faut que je voie où est la plaie. En ne détournant d’aller la sonder, vous pensez sans doute qu’elle peut se guérir sans moi ; je le crois sans peine si tous ceux qui se disent spirites y mettaient du leur, en faisant abnégation de leur personnalité et de leur amour-propre ; c’est à ce sacrifice qu’on reconnaît le vrai spirite ; sans cela, on ne l’est [3] que de nom ; on le reconnaît aussi à son zèle effectif, à sa persévérance à lutter contre les obstacles et les difficultés. Vous dites que vous m’appellerez quand tout ira bien ; je n’ai certes pas la présomption de me croire indispensable pour faire marcher la barque, et que d’autres peuvent tout aussi bien que moi la mettre à flots ; mais puisque vous voulez bien m’honorer du titre de chef, convenez que ce serait faire une triste part au général que de l’appeler après la victoire. Vous dites que je n’aurai que des déceptions ; croyez-vous donc que je ne trouve que des roses sur ma route ? Si je devais me détourner à chaque épine que je rencontre, je n’aurais rien de mieux à faire que de rester chez moi, et d’y vivre tranquille, laissant les autres se débrouiller comme ils pourraient ; puis, quand la besogne serait faite, me montrer pour recevoir les honneurs. Franchement, mon cher Monsieur, je croyais que vous aviez de moi une meilleure opinion. Non, Monsieur, je ne vais pas à Bordeaux pour parader, et je désire que tous mes confrères en spiritisme m’estiment assez pour me croire au-dessus de pareilles puérilités.
[4] Je pars aujourd’hui même pour Bordeaux ; j’accepte l’invitation de Mr. Sabò d’aller loger chez lui rue Mazarin No 2. Si là est le danger, il faut que je le voie de mes propres yeux. Je sais que cette famille ne tient pas le haut du pavé dans la ville ; que son existence est fort modeste ; mais je ne suis pas prince, et comme spirite, je tiens moins encore à une réception princière qui serait en contradiction avec les principes que je professe.
Soyez parfaitement tranquille au sujet de votre dernière lettre confidentielle ; j’en ferai mon profit, mais je n’en parlerai pas ; je serai censé n’avoir pas de vos nouvelles depuis longtemps.
Croyez, mon cher Monsieur, que ce sera pour moi une bien grande satisfaction d’aller vous voir à votre campagne et de vous serrer la main, si j’en ai le temps ; mais comme je resterai peu de jours, je ne sais si je pourrai me procurer ce bonheur.
Votre tout dévoué et affectionné
Allan Kardec
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