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Rascunho de carta para o senhor Thiry - 03/05/1861

]3 de maio de 1861.[

Meu caro senhor Thiry,

Ontem à noite, depois que o senhor partiu, ainda trabalhei até a uma e meia da madrugada, o que não me impediu de me levantar às cinco e meia, porque eu tinha correspondências que deveriam partir pelo primeiro correio. E ao escrever aos outros, veio-me o pensamento de lhe escrever para acrescentar algumas reflexões à nossa última conversa.

Certas pessoas, o senhor me disse, censuram-me por tomar uma posição dogmática no Espiritismo, de me tornar o propagador de um sistema, numa palavra, de ter promulgado uma doutrina. Na verdade, é preciso ser bem curto de boas razões para dizer tais coisas. Não imponho minhas ideias a ninguém. Por que aqueles que criticam o que erroneamente chamam de meu sistema não fazem um melhor? Sou eu quem os impede? as editoras? elas lhes estão fechadas? Ao ouvi-los, acreditaria-se realmente que eu não devia fazer nada sem o controle e a permissão deles. Primeiro, a doutrina de que me fiz o propagador, tenho dito e não me canso de repetir, não é invenção minha, visto que me foi dada pelos Espíritos; mas, se ela tivesse saído de meu cérebro, será que eu não teria o direito de ter minhas próprias ideias, de as formular, de as publicar? Por que não me seria permitido, como a todo o mundo, criar um sistema filosófico? Tratar a questão dos Espíritos à minha maneira?

Singulares defensores do Espiritismo, estes que não fazem nada, que não se afastariam um só instante de seus afazeres pessoais ou de seus prazeres por esta causa, e que se atiram contra aquele que, depois de anos, a ela exclusivamente consagra seu tempo, a ela sacrifica seu repouso, sua saúde e seus interesses. Ainda, uma vez que eles trabalhem e estudem, como faço dia e noite e, se fizerem melhor, terão o direito de falar, mas jamais de difamar aquele que, supondo que se engane, dedica-se com sinceridade e desinteresse, e prestou à causa do Espiritismo serviços que só uma parcialidade invejosa pode ignorar. Se eu os impeço de dormir, terão de se armar de paciência, pois ainda não cheguei ao fim da tarefa que me foi traçada.

Eles me censuram ainda por eu me apresentar como chefe de escola. Se esse título me fosse concedido alguma vez, eu teria muito mais motivo de estar honrado, ao não o haver obtido por nenhuma intriga. A doutrina que professo encontra partidários em todas as partes do mundo, como atesta uma correspondência que se conta aos [...] milhares [...] de quem a culpa? Não será por certo devido ao concurso que me tem prestado a imprensa periódica. Não procurei a popularidade, uma vez que me quis apagar completamente, mas devo reconhecer que, desde a publicação de meus primeiros escritos, isso não foi possível; fui imediatamente encontrado, e vieram-me procurar até em meu eremitério da Avenue de Ségur, onde queria retirar-me e viver ignorado. Hoje as coisas chegaram ao ponto de me ser impossível pôr-me de lado; fui arrastado pela torrente que se aumenta todos os dias; minha rota está então traçada pela Providência, não me posso desviar dela, e eu morrerei na minha tarefa; mas se eu acreditar no que me foi dito, mesmo minha morte não porá fim à missão que devo cumprir, e o que faço hoje não é senão a continuação de uma obra já começada anteriormente.

Como a crítica pouco se atém às contradições, enquanto uns me censuram por me colocar à frente, outros me acusam de orgulho, porque não vou visitar ninguém. É bem verdade que faço poucas visitas ou nenhuma, mas por outros motivos: é que não me sobra tempo para isso. Por outro lado, recebo muita gente; pessoas da mais alta classe me têm honrado com sua presença e seus testemunhos de benevolência; só dependeria de mim abrir as portas da alta sociedade e, entretanto, não o tenho feito porque o tempo que teria empregado em cerimônias inúteis teria sido subtraído dos infelizes que vêm diariamente à minha casa buscar consolações; e admito-lhe que o prazer de restituir-lhes a paz da alma e os arrancar do desespero supera em muito o gozo vão de ser recebido nos salões dourados.

Ora, a propaganda que fazem os aflitos consolados é a mais persuasiva, porque vai ao coração, muito mais do que a curiosidade satisfeita. Os que vêm me ver, ademais, não vêm pela minha pessoa, mas pelo Espiritismo, e me repugnaria impor-me a eles. Como não ambiciono nem honrarias nem fortuna, nada tenho a pedir para mim, e a doutrina caminha bastante bem por sua própria força e por sua infiltração nas massas, sem ter a necessidade da ajuda da intriga que a macularia. Nunca fui intrigante em minha vida, e não é professando o Espiritismo que me tornarei. Sei que se obtém muito pela intriga e pela bajulação, mas prefiro não ter nada, a ficar devendo algo a esse preço. Aqueles que quiserem vir a mim, venham; não chamo ninguém; aqueles que não vierem, é porque isso não lhes convém; não quero, pois, constrangê-los. Ora, como as pessoas de boa vontade não faltam, não vejo por que iria perder meu tempo com indiferentes.

Sei que tenho muitos inimigos; ninguém se põe jamais em evidência sem atrair sobre si os olhares dos invejosos e dos ciumentos; mas vejo as coisas de muito alto para me inquietar com os murmúrios que, em nenhum instante, perturbaram meu repouso; minha indiferença os irrita; gostariam que eu os levasse em conta, mas tenho outras coisas mais úteis a fazer; eu os lastimo por se atormentarem por tão pouco.

Eis, senhor, minha profissão de fé; cabe-lhe considerar se a julga digna de um homem que vê no Espiritismo uma coisa sagrada. Sua rápida propagação, que ultrapassa minhas esperanças, e para a qual creio ter contribuído um pouco, paga-me ao cêntuplo miseráveis perseguições da malevolência que, à falta de melhores, se apegam a fúteis questões de palavras e de nomes, como se uma crença que toca os mais graves interesses da humanidade não estivesse acima de semelhantes puerilidades.

Seu todo devotado e afetuoso,

Allan Kardec.

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]3 mai 1861.[

Mon cher M.r Thiry,

Hier soir après que vous m’avez quitté j’ai encore travaillé jusqu’à 1h 1/2 du matin, ce qui ne m’a pas empêché de me lever à 5 1/2 parce que j’avais des correspondances qui devaient partir par le premier courrier. En écrivant aux autres, la pensée m’est venue de vous écrire à vous-même pour ajouter quelques réflexions à notre dernier entretien.

Certaines personnes m’avez-vous dit, me reprochent de prendre dans le Spiritisme une position dogmatique, de me faire le propagateur d’un système, en un mot d’avoir promulgué une doctrine. Il faut en vérité, être bien à court de bonnes raisons pour dire de pareilles choses.* {*Je n’impose mes idées à personne ; pourquoi ceux qui critiquent ce qu’à tort ils appellent mon système n’en font-ils pas un meilleur ? Est-ce moi qui les en empêche ? les imprimeries ? leur sont-elles fermées ? À les entendre on croirait vraiment que je ne devais rien faire que sous leur contrôle et avec leur permission.} D’abord la doctrine dont je me suis fait le propagateur, je l’ai dit et répété à satiété, n’est pas de mon invention, puisqu’elle m’a été donnée par les Esprits ; mais fût-elle sortie de mon cerveau, est-ce que je n’ai pas le droit d’avoir des idées à moi, de les formuler, de les publier ? Pourquoi ne me serait-il pas permis comme à tout le monde de créer un système philosophique ? De traiter la question des Esprits à ma manière ?

Singuliers défenseurs du Spiritisme, qui ne font rien, qui ne se dérangeraient pas d’une ligne de leurs affaires personnelles ou de leurs plaisirs pour cette cause, et qui s’attaquent à celui qui depuis des années y consacre exclusivement son temps, y sacrifie son repos, sa santé et ses intérêts. Encore une fois qu’ils travaillent et qu’ils étudient comme je l’ai fait jour et nuit, et s’ils font mieux, ils auront le droit de parler, mais jamais de <diffamer> celui qui, en supposant qu’il se trompe, se dévoue avec sincérité et désintéressement, et qui a rendu à la cause du Spiritisme des services qu’une partialité jalouse peut seule méconnaître. Si je les empêche de dormir, ils n’ont qu’à s’armer de patience, car je ne suis pas au bout de <la> tâche qui m’est tracée.

Ils me reprochent encore de me poser en chef d’école. [illis.] Si jamais ce titre m’est concédé j’aurais d’autant plus lieu d’en être honoré ; que je ne l’aurais brigué par aucune intrigue. La doctrine que je professe trouve des partisans dans toutes les parties du monde, ainsi l’atteste une correspondance qui se compte par [...] <milliers> [...] <et> [...] à qui la <faute> ? Ce n’est certes pas <celle> du concours que m’a prêté <la> presse périodique. Je n’ai pas cherché la <popularité>, puisque je voulais m’effacer complètement ; mais j’ai dû reconnaître dès la publication de mes premiers écrits que cela ne se pouvait pas ; j’ai été immédiatement débordé, et l’on est venu me chercher jusque dans mon <hermitage> de l’avenue de Ségur où je voulais me retirer et vivre ignoré. Aujourd’hui les choses en sont arrivées au point qu’il me serait impossible de me <mettre> à l’écart ; je suis entraîné par le torrent qui s’accroît tous les jours ; ma route est donc tracée par la Providence, je n’en puis dévier, et je mourrai à la tâche ; mais si j’en crois ce qui m’a été dit, ma mort même ne mettra pas fin à la mission que je dois accomplir, et ce que je fais aujourd’hui n’est que la continuation d’une œuvre déjà commencée antérieurement.

Comme la critique se soucie peu des contradictions, tandis que les uns me blâment de me mettre en avant, d’autres m’accusent de fierté parce que je ne vais voir personne. Il est très vrai que je fais peu ou point de visites, mais par un autre motif, c’est que je n’en ai pas le temps. En revanche je reçois beaucoup de monde ; des personnes du plus haut rang m’ont honoré de leur présence, et <de> leurs témoignages les plus bienveillants ; il ne tenait qu’à moi de m’ouvrir les portes du grand monde, et pourtant je ne l’ai pas fait, parce que le temps que j’eusse employé en <cérémies> inutiles, eut été autant de dérobé aux malheureux qui viennent journellement chez moi chercher des consolations ; et je vous avoue que le plaisir de leur rendre la paix de l’âme et de les arracher au désespoir l’emporte de beaucoup sur la vaine jouissance d’être reçu dans les salons dorés.* {*Or la propagande que font les affligés consolés est la plus persuasive, <parce> qu’elle va au cœur, bien que la curiosité satisfaite.} Ceux qui viennent me voir, d’ailleurs, ne viennent pas pour ma personne, mais pour le Spiritisme, et il me répugnerait de m’imposer à eux. Comme je n’ambitionne ni les honneurs, ni la fortune, je n’ai rien à demander pour moi, et la doctrine marche assez bien par sa propre puissance, et par son infiltration dans les masses, sans avoir besoin du secours de l’intrigue qui la ternirait. Je n’ai jamais été intrigant de ma vie, et ce n’est pas en professant le Spiritisme que je le deviendrai. Je sais qu’on obtient beaucoup par l’intrigue et la flatterie, mais j’aime mieux ne rien avoir que de le devoir <à> ce prix. Ceux qui veulent venir à moi, viennent ; je n’appelle personne ; ceux qui ne viennent pas c’est <que> cela ne leur convient pas ; je veux donc pas les contraindre ; or comme les gens de bonne volonté ne manque pas, je ne vois pas pourquoi j’irais perdre mon temps avec des indifférents.

Je sais que j’ai beaucoup d’ennemis ; on ne se met jamais en évidence sans attirer sur soi les regards des envieux et des jaloux ; mais je vois les choses d’assez haut pour ne pas m’inquiéter de leurs bourdonnements qui n’ont pas un seul instant troublé mon repos ; mon indifférence les irrite ; ils voudraient que je les prisse à partie, mais j’ai autre chose de plus utile à faire ; je les plains de se tourmenter pour si peu.

Voilà M.r ma profession de foi ; à vous de voir si vous la jugez digne d’un homme qui voit dans le Spiritisme une chose sacrée. Sa propagation rapide, et qui dépasse mes espérances, et à laquelle je crois avoir quelque peu contribué, me paie au centuple des misérables tracasseries de la malveillance qui, faute de mieux, s’attaque à de futiles questions de mots et de noms, comme si une croyance qui touche aux plus graves intérêts de l’humanité, n’était pas au-dessus de pareilles puérilités.

Votre tout dévoué et affectionné,

A.K.