Biografias

Johannes Nicolaas Tiedeman

Johannes Nicolaas Tiedeman (1)

Allan Kardec escreveu essa carta para o senhor Tiedeman pouco tempo após a publicação de O Livro dos Espíritos. No manuscrito, Kardec destaca o sucesso de O Livro dos Espíritos e cita as inúmeras cartas que vinha recebendo a respeito da obra. Interessante notar que Kardec destaca a importância das correspondências para estabelecer a comunicação com os leitores do livro, bem como para receber novos materiais que seriam úteis para a realização da obra que vinha empreendendo.

O correspondente, o senhor Johannes Nicolaas Tiedeman (2) (também conhecido como Johannes Nicolaas TiedemanMartheze (3,4), Tiedeman-Marthèse (5,6,7), Tiedemann Marthèse (8) nasceu em 09/11/1821 na Batávia (atualmente é a cidade de Jacarta, na costa da ilha de Java e capital da Indonésia, então colônia holandesa)(9) e faleceu no Cairo (Egito) em 15/12/1888 (1).Entre os espíritas, seu nome é citado frequentemente como Tiedeman-Marthèse.

O senhor Tiedeman colaborou na introdução do espiritualismo na Holanda, ao convidar, em janeiro de 1858, o famoso médium inglês Daniel Douglas Home para acompanhá-lo até Haia (Holanda) a fim de realizar sessões mediúnicas com o objetivo de tentar comprovar a continuação da vida da alma após a morte do corpo. Incentivado pelo senhor Tiedeman, Home realizou dez sessões em solo holandês. Quatro delas teriam acontecido no palácio da Rainha dos Países Baixos, Sophia Frederika Mathilda, princesa de Wurtemberg, que tinha um filho falecido e buscava obter algum tipo de comunicação com ele. A visita de Home à Holanda recebeu uma ampla cobertura em revistas e jornais à época. Straaten(1890) relata que várias sociedades espiritualistas se formaram posteriormente em Amsterdã, Rotterdam, Haia, entre outras. (4,6,10)

Em relação ao Espiritismo na França, Tiedeman fez parte de um grupo de cinco homens eminentes, a exemplo de Victorien Sardou (dramaturgo e escritor francês)(11,12), seu pai Antoine Léandre Sardou (autor de livros escolares e historiador)(13), Saint-René Taillandier (filósofo, educador, historiador, homem de letras e político)(14) e Pierre-Paul Didier (livreiro e editor)(15,16) que, a partir de 1850, começou a tratar dos fenômenos do espiritualismo, importado dos Estados Unidos, para a França. Eles começaram a frequentar as sessões mediúnicas e se envolveram nas investigações dos fenômenos produzidos nessas reuniões, concluindo pela imortalidade da alma e seu poder de comunicação com os encarnados na Terra (5).

Sentindo-se incapazes para dar continuidade a esse trabalho e procederem à classificação das comunicações mediúnicas, obtidas ao longo de cinco anos através dos médiuns durante as sessões que frequentavam, resolveram entregá-las para Allan Kardec que, após um certo período de resistência, teria se convencido sobre a veracidade das manifestações tidas como espirituais, iniciando o processo de organização dessas comunicações. (5,12)

No livro Obras Póstumas, Kardec relata que pediu dinheiro emprestado para o senhor Tiedeman para realizar a publicação da Revista Espírita, um jornal espírita que ele pretendia passar a publicar no ano de 1858. “Tenho a intenção de publicar um jornal espírita, pensais que chegarei a fazê-lo, e mo aconselhais? A pessoa à qual me dirigi, o Sr. Tiedeman, parece-me decidido a dar o seu concurso pecuniário”. (17)

No entanto, em um outro momento Kardec deixa claro que publicou a Revista com recursos próprios, indicando que Tiedeman teria desistido de realizar o empréstimo:

“Apressei-me em redigir o primeiro número, e fi-lo aparecer em janeiro de 1858, sem disso nada ter dito a ninguém. Não tinha um único assinante e nenhum sócio capitalista. Fi-lo, pois, inteiramente aos meus riscos e perigos, e não ocorreu de me arrepender disso, porque o sucesso excedeu a minha expectativa. A partir de 1º de janeiro, os números se sucederam sem interrupção, e, como o Espírito previra, esse jornal se me tornou um poderoso auxiliar. Reconheci mais tarde que estava feliz por não ter um sócio capitalista, porque estava mais livre, ao passo que um estranho teria podido querer me impor suas ideias e sua vontade, e entravar a minha caminhada; só, não tinha que dar contas a ninguém, por pesada que fosse a minha tarefa como trabalho”. (17)

Referências

(1)https://rkd.nl/nl/explore/images/174100?fbclid=IwAR1PEfUx-thK-iIss4SYC0mLj9_xMfiHKllWDaCEIYBip5xCTJEwlA-BpME

(2)Seth, Carlos. https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/773482450082206

(3) https://www.openarch.nl/hga:660FB266-0338-4C64-8820-1350D2178E54/de

(4) Kloosterman, Ingrid. ‘Spiritalismusvincit Mundum’ Dutch spiritualism and the Beginning of psychical research. Studium. Vol. 7, no. 3 (2014) 157–172 | ISSN: 1876-9055 | e-ISSN: 2212-7283. https://www.gewina-studium.nl/articles/10.18352/studium.9832/

(5) Compte rendu du Congrèsspirite et spiritualiste international, tenu à Paris du 9 au 16 septembre 1889. Paris: 1890, 454 p. Avec mode texte Droits: domaine public Identifiant: ark:/12148/bpt6k11834925 Source: Bibliothèque nationale de France, département Philosophie, histoire, sciences de l'homme, 8-R-9833 (1889) https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k11834925/f55.item.r=tiedeman

(6) Van Straaten, F.W. H. Rapport sur le spiritualisme et le spiritisme dans les pays-bas. In Compterendu du Congrèsspirite et spiritualiste international, tenu à Paris du 9 au 16 septembre 1889. Paris: 1890, p. 301. Avec mode texte Droits: domaine public. Identifiant: ark:/12148/bpt6k11834925 Source: Bibliothèquenationale de France, département Philosophie, histoire, sciences de l'homme, 8-R-9833 (1889) https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k11834925/f307.item.r=tiedeman

(7) Revue spirite.Paris: Presse Ancienne RetroNews. D'édition: 1958-03, p. 48. Description: 1958/03 (A101)-1958/04.Droits: conditions spécifiques d'utilisation - BnF-partenariats, Identifiant: ark:/12148/bpt6k2710908r https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k2710908r/f8.image.r=Tiedeman-Marth%C3%A8se?rk=42918;4

(8) Leymarie, P.G. Réflexions Philodophiques (suite). Revue spirite 41(6): 321-329, 1898. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k27097750/f5.item.r=tiedemann%20marthese%20.zoom

(9) Em 1619, os holandeses tomaram a cidade e a destruíram, construindo no local a cidade da Batávia, que se tornou a capital do governo holandês na Indonésia. O domínio holandês durou até meados do século XX. A Indonésia tornou-se independente em 1949. https://www.britannica.com/place/Jakarta e https://www.wdl.org/pt/item/2900/

(10) https://www.britishmuseum.org/collection/term/BIOG115377

(11) Na segunda metade do século XIX, Victorien Sardou (1831-1908) foi o embaixador não oficial da cultura francesa no exterior, graças em particular à sua musa Sarah Bernhardt, para quem escreveu sete peças. Em seus quarenta anos de carreira foi autor de contos de fadas, comédias dos costumes, sátiras sociais, dramas históricos ou psicológicos, foi também diretor, agente literário e promotor de espetáculos. Ducrey,Guy (org.). Victorien Sardou, un siècle plus tard. Editora: Presses universitaires de Strasbourg. Collection: Configurations littéraires, 2007, 461 p. ISBN: 9791034404391. Publication sur Open Edition Books: 26 février 2019. https://www.7switch.com/fr/ebook/9791034404391/from/openedition

(12) D’Andrea, Patrizia. Victorien Sardou et le spiritisme. In: Ducrey,Guy (org.) Victorien Sardou, un siècle plus tard. Presses universitaires de Strasbourg. Collection: Configurations littéraires, 2007, p. 97-107. ISBN: 9791034404391. Publication sur Open Edition Books: 26 février 2019.https://books.openedition.org/pus/10986

(13) https://data.bnf.fr/fr/11923705/antoine-leandre_sardou/

(14) https://www.persee.fr/authority/394566

(15) http://www.luzespirita.org.br/index.php?lisPage=calendar&qAno=SN&qMes=12&qDia=2

(16) https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k57612181/f24.image.r=Pierre-Paul%20Didier?rk=85837;2

(17) Kardec, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 1993 (1890), p. 293-294.